Uma Esfinge sem Segredos

Histórias da realidade fictícia de vidas convexas...



Pra que falar em alegria, se o que me resta é inquietação. A inquietação da minha consciência que não tem catarata ou astigmatismo e enxerga perfeitamente a realidade dos instantes, de todos eles, até os irreais.

Então, se a consciência é perfeita não posso culpá-la pelos dissabores. Só quem pode ir à fogueira sou eu. Driblo todos os avisos em forma de sintomas; esquivo-me dos meus auto-conselhos e no impulso mergulho de cabeça em mais uma rocha pontiaguda.




O que eu queria mesmo era dizer adeus sem olhar para trás, dizer já de costas enquanto caminhava rapidamente, quase como um trote. O sobretudo aberto esvoaçava como que por efeitos especiais. Em meio segundo, sem perder os passos e sem olhar para qualquer lado, se não para frente, amassei e joguei o voucher de uma maneira automática em uma alta e esquia lixeira prateada. Quase tropecei numa criancinha, mas não tinha nem ar para parar e pedir desculpas. Alcancei a imensa porta transparente, que um senhor assustado segurou enquanto eu transpassava loucamente, entrando num táxi, aonde o chofer abrira a porta para outra pessoa. Sentei, abaixei a cabeça, e respirei fundo sentindo a lágrima subir pela narina. Queria pedir para arrancar logo o carro e irmos, mas para onde? Era o que eu queria ter feito...

Abri os olhos e me vi....

Estava sentada, ansiosa, balançando a perna direita e olhando o voucher que gostaria de ter jogado fora em minhas mãos. Enquanto balançava a perna tentei me concentrar na sujeira de barro na borda lateral da minha bota. Olhei o painel. O vôo não atrasou como eu queria que acontecesse. Sempre atrasa, hoje não. Lei de Murphy.

Era fraca o suficiente para ficar ou porque não sairia correndo? Uma decisão deveria ser tomada, e eu só queria atirar nos auto-falantes do aeroporto, para que aquela voz anasalada and apiranhada parasse de tagarelar...



* BC

Minha cabeça latejava e fui até o armário do banheiro procurar alguns comprimidos. Franzia a testa e cerrava os olhos para evitar a luz. Explodia-me a cabeça.

Quando consegui finalmente chegar ao armário, já não podia enxergar o suficiente para ler os rótulos dos medicamentos. Havia uma chuva prateada em minha visão.

Respirei fundo, tentei acalmar e esforcei-me para tentar lembrar quais as embalagens poderiam ser analgésicos.

Não descobri.

Bati a porta do armário e escorreguei esmorecendo até o chão.

Este desespero me tomava.

As lágrimas brotavam incessantemente.

Arrastei-me até o box e liguei o chuveiro.

O barulho da água batendo no chão e rebatendo na parede era ensurdecedor para mim.

Ainda sentada no chão, apoiava-me na parede para tirar as roupas.

A camiseta me dava mais trabalho, pois cada vez que tentava passá-la pelo pescoço, tonteava. Apoiei um braço na parede e com o outro, a puxei para cima de uma só vez, tão abruptamente que bati a cabeça no azulejo.

Fechei os olhos, pensando se aquilo tudo não acabaria. Engatinhei até o chuveiro e senti a água morna, lavando meu corpo e pesando na minha cabeça, cada gota que caia, parecia uma martelada que me aplicavam.

Fui deixando a água me cravar... ainda sentada, abaixei a cabeça e adormeci.

Acordei subitamente, assustada e percebi que estava na cama, coberta por um lençol. A cabeça ainda latejava um pouco. Foi aí que o vi passando porta adentro e me sorrir. Aproximou-se da cama e disse que logo que ouvira meu recado, correu pra casa e me encontrou dormindo no box. Preocupo-se com o corte que viu em minha testa. Eu, por sinal, não havia percebido. Secou, fez-me um curativo e, não me pergunte como, levou até a cama, cobriu-me e velou meu sono.

Sorri de volta, passando a mão na testa verificando o band-Aid. Olhei minha mão direta, e o brilho do solitário que ainda estava no dedo anelar.

Vi que trazia aspirinas e chá. Sentou-se ao meu lado na cama, repousei a cabeça no seu colo. E enquanto afagava meus cabelos, eu sentia o calor da felicidade se aproximando...

Quanta sorte tenho, pensava insistentemente. O que explode agora é a certeza de alguma cumplicidade.

O amor - que nunca tive - agora toma conta do meu ser.


BC*


Talvez fosse só o sol queimando meus olhos, mas eu não podia mentir que eram lágrimas que comunicavam a dor que vinha me queimando por dentro. Como haviam pessoas ali ao meu redor no jardim externo do Teatro, eu ainda colocava a mão frente aos meus olhos franzidos, apoiando-a nas sobrancelhas disfarçando, fingindo que era a claridade que me irrigava. Eu sentei no banco como se houvesse montado em um cavalo, com as pernas separadas, o banco era de uma grande extensão fazia curvas, de longe lembrava o desenho de uma onda. Então eu estava sentada ali acompanhada de vários estranhos com rostos simpáticos refletindo felicidade. Eu tentei não sentir inveja de todos e iria me concentrar em estudar para o exame de amanhã. Subi uma das minhas pernas para poder apoiar o livro, tentei achar uma pasta de músicas do meu Ipod que não me falassem de nada que lembrasse da minha dor. Mas era praticamente impossível, xinguei de não ter baixado um CD de piadas, mas creio que até nas piadas eu iria encontrar algo que me lembrasse do buraco no meu peito.

Enquanto eu ainda tentava ajeitar minha mochila no colo e os livros, eu pensei que as pessoas estavam rindo demais pro meu gosto, comecei a me irritar. O casal de mocinhas que trabalhavam no Café, se beijavam loucamente. O rapaz alto e largo fazia gracinhas com duas garotas assanhadas. Uma moça alternativa, muito branca para o nosso clima tropical, tinha um aspecto de estar semanas sem lavar seus cabelos lisos e sebosos, falava num tom baixo, mas tão rápido ao celular que de qualquer jeito não era entendível, mas ela estava feliz. Bah, será que não percebiam que era maldade essa felicidade toda? Que estão dificultando a minha tentativa de cicatrização do buraco? Já ia me levantar quando lembrei que sentei neste lado do pátio, porque o outro havia aquele bendita árvore que eu deitei debaixo dela numa segunda–feira à noite falando ao celular com... não interessa com quem! Aquele dia sim eu estava feliz, eu ria compartilhando risadas e desenhava com o dedo indicador, no ar, as folhas da copa da árvore testemunhava aquele momento tão bom que só acabou porque descarregou o telefone.


Bom, foi por isso que eu não poderia me sentar lá, porque eu provavelmente deitaria no chão debaixo da árvore, mas não por contentamento, e sim porque a dor iria ressuscitar e eu teria que me embolar no chão para contê-la.


Olhei novamente ao meu redor pra ver se alguma coisa havia mudado, se tinha alguém com cara de paisagem pelo menos, mas não, só as mocinhas que não se beijavam mais e sim riam em alto tom colocando pedacinhos de chocolate na boca uma da outra. Pensei na caixinha de Ferrero Rocher que estava vazia na gaveta da minha cômoda. Urgh! Fechei os olhos e implorei a Deus por um momentozinho de paz, mas a única coisa que eu consegui foi um mocinho de camisa cor sim/cor não me olhando com cara de pedinte. Só faltava essa... Levantei, juntei minhas coisas e saí andando pelo Teatro para ver se não havia nenhum filme chinês com legenda em grego que eu pudesse assistir... em vão. Procurei algum idoso falastrão, sempre há um que me acha com cara de mocinha de caridade e resolve me contar de outrora. Nem isso havia. Eu agora sentei na parte interna do teatro, nuns bancos perto do Cine. Haviam diversas pessoas ali, mas desta vez não me importavam, nem sequer percebi se me atingiam os olhos.


Já haviam passado várias faixas de músicas, várias pastas e não tinha percebido nenhuma. Graças à Deus, acho que ele me ouviu sim. Mas logo quando fui perceber qual tocava n o momento, era Tristesse. Não teve como me conter novamente, a ferida abriu-se, e agora já não tinha mais a desculpa do sol afetando minha fotofobia. Eu apenas me virei para a parede e tentei fazer um exercício de respiração que ao invés de ajudar, me fez perder ainda mais o ar. O banheiro feminino estava a dez passos de onde eu estava sentada, mas parecia que minhas pernas desobedeciam meu cérebro e não consegui me levantar para me esconder numa cabine do toilet.

Tentei segurar a dor fechando o zíper da minha blusa tapando o decote, e disfarçadamente eu limpava as lágrimas com a ponta dos meus dedos e descia-os molhados passando na garganta pra ver se derretia a bola dura que havia lá, na tentativa de deixar o ar passar, para que eu não desmaiasse ali mesmo.


Quando abri os olhos, depois de 20 segundos me preparando psicologicamente para que nada húmido saísse quando eu os abrisse, vi que as portas do Cine se abriam. Agora minhas pernas se manifestaram sozinhas e eu peguei o ingresso no bolso de trás do jeans e entreguei ao senhor da entrada. Sentei bem cômoda em uma das últimas fileiras num lugar estratégico para o qual ninguém fosse se incomodar de sentar ao meu lado. Me distraí quase todo o filme, apesar de lembrar de mim em algumas personagens. O subúrbio antigo da Polônia era muito longe da minha realidade de subúrbio do interior mineiro. Não haviam tantos amores, e nem eram distantes, então eu me lembrava sem perder a perspectiva do filme. Em síntese, a ferida se fechou temporariamente. Mas quando me ative que o filme estava chegando ao fim, tive muito medo dela se abrir novamente e o lanterninha querer me tirar a força da poltrona e eu tentar dizer pra ele e para as minhas pernas que eu queria sair e não conseguia. Perdi boas cenas imaginando isso. O público ria, eu pensei se eles estavam assistindo meu pensamento na tela... mas não era esse pesadelo, era apenas o garotinho polonês mijando no pneu do Porsche do magnata italiano, mesmo. Eu ri do lindo encapetado loirinho e continuei me distraindo até que acabou e o lanterninha não precisou me guinchar da poltrona. Levantei automaticamente e fui rumo as escadas que subiam pro hall que dava para a avenida principal.


Bastaria atravessar três ou quatro sinais para chegar ao ponto do meu ônibus intermunicipal e eu teria que ficar consciente para atravessar sem ser atropelada. Respirei o máximo e mais profundo que pude e fui pensando em inspirar e expirar sem parar... até que atravessei os três sinais (o outro que imaginei, não existia). Rapidamente o meu ônibus chegou. Entrei, sentei em uma cadeira velha qualquer daquela lata desmanchante e adormeci por quase uma hora, sem sonhos, sem a dor.

Foi fácil chegar em casa, o caminho era demarcado como algo automático a se fazer. Merda de automação, eu tinha que lembrar... Mas ao chegar em casa a mesma ladainha e gritaria de sempre, que mesmo não sendo comigo, me atingia. Eu sorri trancando meus sentimentos e minha dor para quando eu fosse deitar, rezando para meu telefone tocar e desaparecer eternamente com o buraco. Deitei com o telefone ao meu lado, mudo, paralisado, sem tocar, sem vibrar, sem vida.


Tudo bem... pode sair dor, pode doer, todos já dormem e eu não preciso mais fingir. Te sentirei até adormecer. Quem sabe amanhã eu consiga te libertar de mim, mas se não der, vamos rezar para que faça um sol ardente e eu possa chorar.

*BC


O silêncio é uma coisa muito dolorosa pra mim. Dói mais que certas palavras assassinas de sentimentos.

A dúvida é outra coisa cruel, que a minha personalidade irritabiliza espontaneamente. Mas eu me encontro num dilema de ser inimiga da dúvida e tê-la dentro de mim.

Creio que as dores que abriam meu peito, se cicatrizaram tão forçosamente que agora, não doem mais, e fizeram da tristeza um certo sentimento antipático.

Aquilo que me atingia profundamente antes, que doía tanto, que tirava meu chão, agora quando pensa em doer, me dá agonia. Uma vontade de arrancar aquilo de vez.

E aí que surge a dúvida e esta fica carregada de medo de dar o passo errado, porque quando a dor era só tristeza, não havia só dor. Até porque se doía, era porque feria um sentimento bom. Queria achar esse sentimento bom. Ele existe, mas a agonia, não está me deixando enxergá-lo.

Todos os dias, os esforços são feitos para sugar uma coisa boa.

Talvez eu estivesse certa em ser pedra, estalactite de gelo, e também estava certa em tentar me derreter algum momento. Mas eu deveria ter seguido o curso natural e me derretido aos poucos, ou pensado no momento certo de fazer isso.

Eu já estou toda líquida com uma vontade insana de me transformar de volta em estalactite.

O leite foi derramado e a criança está berrando de fome. Mas não há nada a se fazer, a não ser aceitar as conseqüências com dignidade.

Um texto que ninguém a não ser eu própria irei entender, egoísta, eu sei. Acho dificilmente também que será lido então não creio haver problemas.

Achei que não deveria postar uma coisa dessas, mas realmente eu não quero sofrer no silêncio...


*BC

Sonhei que estava pela rua balançando um jornal estericamente e gritando: "Bomba!! Buemba!! Explodiu meu coração! Estilhaçados cacos espalhados pelo chão seco... agora 'molhado' pelo meu sangue."
Ahhh como me sinto mais leve!!! CATACAPARÉUUUUU!!!


Se os sonhos fossem vendidos, eu agora estaria na Conchinchina pensando em que país seguir na noite seguinte.
Olha aqui: sonho, só, não enche barriga! Só enche de merda a cabeça da gente!
E o pensamento de esperança vazia...


Preciso de paciência!! Aliás, o mundo precisa...
1( inspira, respira)... 2... 3... 4... nem ao 5 eu consigo chegar!


Confusão.
Que angústia na garganta.
Será que não dá para esta minha alma entender de vez que não dá??!
Aceitar e pronto! Não que chegasse com isso a ser feliz, mas evitaria grande parte desta dor.

Mas quem disse que gosto de evitar algo? Cabeçuda, estupidez de sempre querer se atirar na espada. Pena que o gladiador me vendo como presa, não quer me esquartejar de uma vez, prefere fazer pequenos cortes ardidos e ver meu sangue escorrendo vagarozamente.

Pior sou eu achar linda a expressão que a face dele tem quando me desfigura...

Eu até espanto os cavalheiros que pretendem me salvar.
Peço piedade ao gladiador, que me deflagre de uma vez...
"[...] Ah, se eu te pudesse fazer entender[..]"

Nada mais há ao meu redor, só a escuridão que me cerca e os fios luminosos e brilhantes do meu sangue que espirrou em seu rosto escuro.


DESACORDO ACORDADA em talvez...

B.Caroline








Posto abaixo um conto que não é de minha autoria, mas que gostei bastante e gostaria de compartilhar com todos.


Boa leitura...

A ESFINGE SEM SEGREDO

por Oscar Wilde
UMA ÁGUA FORTE


Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez anos, de modo que me encheu de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostaria dele imensamente. Era tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares. De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.
- Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.
- Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.
- Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.
- Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.
- Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.
Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direção da Madalena.
- Para onde vamos? - perguntei.
- Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e contar-me-á tudo a respeito da sua vida.
- Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.
Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou-me. Abri-a. Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante (1) e achava-se envolta em ricas peles.
- Qual é a sua opinião a respeito desse rosto - perguntou ele. - Inspira confiança?
Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos, uma beleza, de fato, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era demasiado subtil para ter realmente encanto.
- Bem - exclamou ele, impaciente - que me diz?
- É a Gioconda em vestes de luto - respondi. - Conte-me tudo quanto a ela se refere.
- Agora não; depois do jantar - disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.
Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa cadeira de braços, contou-me a seguinte história:
- Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma belle inconnue (2) e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois, estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy. Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:
«Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy».
Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:
«Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo».
Senti-me desditosíssimo por ter começado tão mal e mergulhei cegamente numa dissertação sobre peças francesas. Ela falava pouquíssimo, sempre com a mesma voz baixa e musical, parecendo receosa de que alguém a estivesse escutando. Senti-me apaixonadamente, estupidamente enamorado e a indefinível atmosfera de mistério que a cercava excitava, a mais não poder, a minha curiosidade. Quando ela se retirou, logo após o jantar, perguntei-lhe se poderia visitá-la. Hesitou um momento, olhou em redor para ver se alguém estava perto de nós e depois disse:
«Sim; amanhã a um quarto para as cinco».
Roguei a Madame de Rastail que me desse informações a respeito dela; mas tudo quanto pude saber é que era uma viúva, morando numa bela casa em Park Lane e, como naquele momento um desses cientistas cacetes começasse uma dissertação a respeito de viúvas, para exemplificar a sobrevivência dos matrimonialmente mais ajustados, despedi-me e fui para casa.
No dia seguinte cheguei pontualmente a Park Lane, no momento exato, mas o mordomo disse-me que Lady Alroy tinha acabado de sair. Dirigi-me ao clube, bastante desiludido e confuso e, depois de muito refletir, escrevi-lhe uma carta, perguntando-lhe se me seria permitido tentar a sorte em alguma outra parte. Por vários dias não recebi resposta, mas afinal chegou-me às mãos um bilhetinho, dizendo-me que estaria ela em casa no domingo, às quatro e com este extraordinário pós-escrito: «Por obséquio não torne a escrever para mim aqui; explicar-lhe-ei, quando o vir». No domingo, recebeu-me e mostrou-se perfeitamente encantadora. Mas quando me despedia, pediu-me que, se alguma vez tivesse ocasião de escrever-lhe de novo, dirigisse a minha carta para «Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whittaker, Rua Verde». «Há motivos - disse ela - pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa».
Durante toda a temporada via-a amiudadas vezes e a atmosfera de mistério sempre se manteve em torno dela. Às vezes pensava que se achava ela em poder de algum homem, mas parecia tão inabordável que não podia acreditar naquilo. Era realmente difícil para eu chegar a qualquer conclusão, pois ela era como um desses estranhos cristais que a gente vê em museus e que são, num momento, claros, e em outro, turvos. Por fim, decidi-me a pedi-la em casamento. Senti-me doente e cansado daquele incessante segredo que impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviei. Escrevi-lhe para a biblioteca, perguntando-lhe se podia ver-me na segunda-feira seguinte, às seis horas. Respondeu que sim e senti-me transportado ao sétimo céu. Estava apaixonado por ela, a despeito do mistério, pensava então... em conseqüência dele, vejo agora. Não; era a mulher mesma que eu amava. O mistério perturbava-me, enlouquecia-me. Porque o acaso fez-me descobrir a pista?
- Descobriu-a então? - exclamei.
- Receio que sim - respondeu. - Julgue você por si mesmo. Quando chegou a segunda-feira, fui almoçar com meu tio e cerca das quatro horas encontrava-me em Marylebone Road. Meu tio, como você sabe, mora em Regent's Park. Queria alcançar
Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e entrou. «Aqui está o mistério», disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma espécie de prédio de aluguer. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso. Depois comecei a refletir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre usava. Era de uma beleza perfeita.
«Alegra-me tanto vê-lo - disse. - Não saí hoje durante o dia».
Olhei para ela, estupefato e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lhe.
«Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor» - disse eu, calmamente.
Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.
«Que estava a fazer ali?» - perguntei.
«Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?» - replicou.
«O direito de um homem que a ama» - respondi-lhe. - «Vim aqui para pedi-la em casamento».
Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.
«Tem de responder-me» - continuei.
Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:
«Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe».
«Foi encontrar alguém» - exclamei. - «É esse o seu mistério».
Ela ficou terrivelmente pálida e disse:
«Não fui encontrar ninguém».
«Não pode dizer a verdade?» - exclamei.
«Já a disse» - replicou ela.
Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lhe, intacta
e parti para a Noruega, em companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de congestão pulmonar. Fechei-me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!
- E você, foi àquela rua, àquela casa? - perguntei.
- Sim - respondeu.
- Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.
«Bem, meu senhor - respondeu ela - as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto a senhora e como os alugueres estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las».
«É esta a senhora?» - perguntei, mostrando-lhe a fotografia.
«É ela, sim, com toda certeza» - exclamou a mulher. - «E quando estará de volta, meu senhor?»
«Morreu» - respondi.
«Oh! meu senhor, não diga!» - disse a mulher. - «Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando».
«Encontrava-se com alguém aqui?» - perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela sempre vinha sozinha e não via ninguém.
«Mas afinal que fazia ela aqui?» - exclamei.
«Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá» - respondeu a mulher.
Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?
- Acredito.
- Então por que ia Lady Alroy ali?
- Meu caro Geraldo - respondi - Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério. Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido
e imaginando ser uma heroína. Tinha paixão pelo segredo, mas não passava de uma simples esfinge sem segredo.
- Estou convencido disto - repliquei.
Lorde Murchison tirou do bolso a carteira de marroquim, abriu-a e olhou a fotografia.
Quem sabe? - disse afinal.




Notas:
1 vidente
2 Minha bela desconhecida

Volto em baixo estilo... mas pelo menos regressei. Prometo melhorar, aprimorar e TENTAR tirar todas as decepções das faces dos leitores.



MARIE MonoAmor
Marie parou pra pensar como é estranho gostar de bater a cabeça na parede. Insistir em algo que por mais que não se tenha futuro visível, ela continua insistindo.

Um dos seus maiores defeitos, teimosia. Quando quer uma coisa, pode haver um abismo, um infinito, mas Marie vai lá e pula de cabeça. Foi assim na sua infância, como aos seis anos montou ‘ao seu modo’, sozinha, sua piscina plástica infantil. Foi assim em sua juventude quando não despintou o cabelo “exótico” na escola militar. E assim também para conseguir uma vaga na faculdade, no emprego. E não é diferente no amor. A diferença neste caso do amor, é que nos outros quesitos, ela pulava, se lançava, insistia e ganhava. O amor ainda não teve esta fase premiada.

Do tipo feminista, rocha, forte, que não engole sapos. Isso para quem a vê de fora, por dentro ela se retorce por ter o que é principal de todos os âmbitos, o amor. Aos olhos externos, o amor não existe em sua vida. Ela concorda que ele não vive ali , mas sabe quanto ele explode dentro de si.

Sentada na poltrona do seu escritório, olhava sem ver, todos os livros da estante relembrando momentos passados com aquele amor. Amor que ela sabia que só vivia em seu cerne.

Com uma mão segurando a alça da xícara de café e a outra com os dedos roçando os lábios ela imaginava as cenas de quando Jacque chegaria.

Jacque era um matemático que vivia longe da cidade de Marie. Se conheciam desde sempre, mas foi na adolescência dela que tudo aconteceu. Desde o começo ela tomou a iniciativa. Ainda olhando o nada, Marie lembrava o dia em que ela se declarou, e ele pasmo, se desviando em palavras, nem a cuspia, nem a beijava. E sem que ela percebesse, aquele seria uma amostra do que viria pela frente. Apesar de se beijarem no ano seguinte e ela ter sua vida em nuvens, ele partiu. E voltaria só depois de muito tempo. Seco, frio como uma manha de outono.

Num estalo, Marie voltou-se para a manhã do outro dia. Dia em que o reencontraria.

Mais uma vez, como em todos os anos, Marie queria libertar desse mono-amor em que só ela amava. Mas até nos pensamentos ela se via acabando em seus braços. Era muito confuso para ela, um amor gratuito, não correspondido. E não era paixão, porque apesar de anos que se viam (mesmo que esporadicamente) nunca chegaram a transar realmente. Era com todas as certezas do universo, um amor puro e verdadeiro.

Apenas Lili, sua leal e paciente amiga, sabia de toda a história. Ela queria apenas o bem de Marie, e sempre insistia para que ela saísse, para que conhecesse pessoas novas. Para que olhasse para os homens que a cortejavam. Para que oferecesse oportunidade para aqueles que ajoelhavam aos seus pés. Lili entendia a cegueira de Marie. E quando Marie chegava sempre contando dos seus momentos bons e frustrados com Jacque , ela a ouvia pacientemente.

Marie se lembrava da amiga, enquanto pensava na chegada de Jacque . Pensava em ligar pra ela e marcar uma viagem para fugir daquele local, para não encontrá-lo. Não teve coragem de largar a xícara em sua mão, sequer ainda de pegar o telefone. Preferiu refletir sobre sua coragem, sobre o questionamento da família de Jacque , sobre a racionalidade firme dele, sobre o amor que ele não sentia, nem sequer sabia que existia. E foi pensando que iria deixá-lo para sempre e guardar aquele amor só para si, que ela adormeceu sobre a escrivaninha.

Ao acordar com a primeira luz da manhã batendo no seu rosto, Marie levantou-se automaticamente e caminhou até o toillet, abriu a ducha e lá deixou a água cair sobre seu corpo por quase uma hora. Uma hora livre, sem pensamentos, sem angustia, apenas a delícia da água lavando seu corpo e sua alma.

Quando já desperta em seu quarto, se secando e decidindo qual roupa usar, lembrou-se que era o dia fatídico. Virou-se para o grande espelho do armário, arqueou as sobrancelhas e decidiu ali mesmo que acabaria com tudo.

Deliciou-se calmamente com seu café da manha, teve um produtivo e excelente dia de trabalho, ainda bebericou umas coisas com algumas amigas e sorridentemente voltava pra casa.

No caminho, pouco antes de chegar a casa, verificou uma mensagem de Jacque em seu celular: “Cheguei, ok.” Simples, dura e seca como ele.

Ela não sabia se era a bebida ou se foi o impacto, mas seu corpo ficara fraco. Assim como seu coração arrebentou-se da barreira que ela própria colocara de manhã. Respondeu imediatamente a mensagem agradecendo a vinda e o saudando. Iriam se encontrar. Era fatal.

Se encontraram na mesma noite em sua casa. Quando a campainha tocou, seu coração disparou como se fosse pular para fora do peito. Ela abriu a porta sem o olhar, o convidou para sentar. Assim ela o olhou, timidamente. Ele sentado e ela de pé a sua frente conversaram por 3 minutos coisas corriqueiras, quando ele levantou e a beijou. Não houve resistência. Amor! Palavra que ele tanto foge, mesmo que mono. Ela o agarrava de forma tão intensa que parecia que não o soltaria. O cheirava, beijava sua face. E tudo voltara ao normal. Decidiram dar uma volta pela cidade. Caminharam juntos ora abraçados, ora de mãos dadas. Olhavam-se com ternura. Como se o amor deixasse de ser mono e virasse co-amor. Uma tontura solta em sua cabeça, não a deixava estar completa naquele momento, porque questionava se aquilo era real, se era espontâneo da parte dele.

Já voltara a esperança de um futuro juntos. E ela sentia que de certa forma ele estava presente. Voltaram para casa de Marie. E ali sim desabrocharam todas as vontades, todas as paixões. Num ato Kamikaze, ela depreendeu de toda timidez que havia e admitiu que se explorassem mutuamente naquele vulcão de hormônios, de saudade, de vontade. Como se naquele momento nada mais houvesse, nenhuma mágoa, nem ressentimento, nem escadas, nem paredes, janelas e o mundo. Só possuíam dois corpos em febre.


B*Caroline
Agora eu sou uma ***

Olá de volta...


Em 1° lugar, sim, eu sou uma pessoa só, a Bruna e a Caroline.
Apesar de ambas viverem um conflito fervoroso, diariamente. São um mesmo espírito.
Pode ser uma coisa chata. Espero que não seja apenas um diário ridículo de uma quase anciã, entrando na casa 22.

Vou tentar entender como a Carol quer ser tão libertária e a Bruna a prende tanto. Segura, pra não ser envergonhada frente a dissimulada sociedade.

Acho que vai ser um lento processo épico, hahaha.

Espero expressar da melhor maneira possível.

Olá 05 de janeiro de 2009. São 01:03, vá dormir Carol, não sabe que tem que trabalhar amanhã? O ponto não perdoa....


Decifra-me ou devoro-te...

Não vai me decifrar nunca...

Soy Yo

Minha foto
A ESFINGE indecifrável, que não própria se entende. E está presa nas próprias teias... Eu sou uma pessoa extremista, um pouco altruista. Fácil e difícil de se lidar, depende de qm for. Eu sou mto forte, por fora... Alguns chegam a dizer q sou doce, mas esses não podem comentar, talvez isso esteja no fundo do meu cerne. Eu qro é mais viver!! Mas tenho medo da vida... Eu amo estando sozinha... Sou fiel aos meus princípios, mesmo batendo a cabeça na parede. Mas posso mudar se ver q o 1+1 talvez não seja realmente 2. Bom pra maioria eu não me fiz entender. Uffa que alívio... Fico feliz com quem entendeu, vem cá...

BC e a hora certa ;)